Enxergamos o tempo todo. Ao acordar, procuramos a luz. Olhamos o celular, vemos nosso rosto no espelho, observamos nossos familiares. Ao sair de casa, encontramos pessoas, árvores, edifícios, céu, animais, anúncios, notícias, imagens e milhares de detalhes. Por ser algo tão constante, talvez seja fácil esquecer uma verdade simples: ver é uma bênção de Allah.
Os olhos não são apenas instrumentos biológicos. No Islã, fazem parte das faculdades pelas quais o ser humano conhece o mundo, aprende, protege-se, contempla a criação, percebe o próximo e reconhece os sinais de Allah. E, justamente porque podemos escolher para onde direcionar nossos olhos, o olhar também pertence ao campo da adoração.
A mesma visão pode conduzir à gratidão ou ao pecado. Pode levar alguém ao Alcorão ou ao que Allah proibiu. Pode contemplar a criação e dizer SubḥānAllāh, ou alimentar inveja, desejo ilícito e comparação. Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas: “O que estou vendo?” mas “O que o meu olhar está produzindo em meu coração e em minha relação com Allah?”
Allah nos concedeu a visão
Allah diz:
“Allah vos retirou do ventre de vossas mães sem que soubésseis coisa alguma e vos concedeu a audição, a visão e os corações, para que talvez sejais agradecidos.” Alcorão, An-Naḥl 16:78
Allah menciona a audição, a visão e os corações e relaciona essas faculdades à gratidão, shukr. Agradecer pela visão não significa apenas dizer: Alḥamdulillāh por poder enxergar. Existe uma gratidão mais profunda: usar aquilo que Allah concedeu da maneira que O agrada.
Os olhos são, portanto, uma amānah, algo confiado a nós. Se Allah nos deu a capacidade de ver, existe também responsabilidade sobre a maneira como a utilizamos.
Tawḥīd: olhar a criação e reconhecer o Criador
Tawḥīd significa reconhecer e afirmar a unicidade de Allah e dirigir a Ele a adoração. Os olhos podem participar desse reconhecimento. Uma pessoa olha para o céu e pode ver apenas nuvens, luz e espaço. Mas pode também perguntar:
Quem criou tudo isso?
Olha para uma árvore e percebe não apenas folhas, mas vida, crescimento, água transformada em seiva, frutos surgindo de uma estrutura que antes parecia seca.
Observa o corpo humano: o olho, a pupila, a retina, a capacidade de distinguir cores, movimentos e rostos.
A visão física pode então despertar uma visão mais profunda: o reconhecimento do Criador. Allah diz:
“Certamente, na criação dos céus e da terra e na alternância da noite e do dia há sinais para os dotados de entendimento.”
E continua:
“São aqueles que recordam Allah estando de pé, sentados e deitados sobre seus lados e refletem sobre a criação dos céus e da terra…” Āl ʿImrān 3:190–191
Os olhos veem. A mente reflete. O coração recorda Allah. É nesse movimento que a observação pode se transformar em adoração.
Ver não é o mesmo que contemplar
Duas pessoas podem observar exatamente a mesma paisagem. Uma vê apenas uma montanha. A outra vê a montanha e pensa: SubḥānAllāh. Uma vê a chuva e reclama. Outra se recorda da misericórdia de Allah. Uma olha para o próprio rosto no espelho apenas em busca de aparência. Outra percebe o tempo passando, o envelhecimento, a fragilidade humana e a brevidade da vida.
O coração procura o significado.
Contemplar a criação, portanto, não significa simplesmente admirar sua beleza. Significa permitir que aquilo que é visto conduza à lembrança do Criador. Shukr é agradecer com os olhos. Shukr é gratidão.
Existe a gratidão da língua: Alḥamdulillāh.
Existe a gratidão do coração: reconhecer que a bênção veio de Allah.
E existe a gratidão dos membros: utilizar a bênção em obediência.
Se alguém nos entrega algo precioso para cuidar, não demonstramos gratidão destruindo aquilo que recebemos. Da mesma forma, se Allah concedeu a visão, usá-la deliberadamente para aquilo que Ele proibiu contradiz o verdadeiro significado de gratidão.
Os mesmos olhos que podem ler o Alcorão podem também procurar aquilo que é ilícito. O instrumento é o mesmo. A escolha é nossa.
Baixar o olhar também é adoração
Allah diz aos homens crentes:
“Dize aos homens crentes que baixem seus olhares e preservem sua castidade. Isso é mais puro para eles.” Alcorão, An-Nūr 24:30
E dirige orientação correspondente às mulheres:
“E dize às mulheres crentes que baixem seus olhares e preservem sua castidade…” Alcorão, An-Nūr 24:31
A disciplina do olhar, portanto, não pertence exclusivamente aos homens ou às mulheres. É uma disciplina espiritual. Jarīr ibn ʿAbdullāh perguntou ao Mensageiro de Allah ﷺ sobre o olhar inesperado. O Profeta ﷺ respondeu:
“Ele ordenou que eu desviasse meu olhar.” Ṣaḥīḥ Muslim 2159a
Esse ensinamento estabelece uma diferença importante entre aquilo que aparece involuntariamente diante dos olhos e a decisão de continuar olhando. Muitas coisas surgem diante de nós sem que possamos evitá-las. Mas, depois disso, existe uma escolha. Continuar ou desviar.
Talvez ninguém perceba esse movimento. Não há plateia nem reconhecimento. A pessoa simplesmente desvia os olhos porque sabe que Allah está vendo. Um gesto aparentemente pequeno pode conter taqwā, sinceridade, obediência e autocontrole.
Allah conhece até o olhar escondido
Allah diz:
“Ele conhece os olhares furtivos dos olhos e aquilo que os peitos ocultam.” Alcorão, Ghāfir 40:19
Esse versículo conduz ao conceito de murāqabah: viver consciente de que Allah conhece nossas ações, inclusive aquelas que ninguém mais percebe.
Existe o olhar disfarçado.
Existe a tela fechada rapidamente quando alguém se aproxima.
Existe aquilo que uma pessoa tenta esconder dos demais.
Mas nada disso está oculto de Allah. Essa consciência não deve produzir uma vida de medo obsessivo. Deve produzir vigilância interior e sinceridade. A pessoa deixa de se preocupar apenas em parecer correta diante dos outros e passa a desejar ser correta diante de Allah. Isso é ikhlāṣ.
O olhar alcança o coração
O Islã não trata a visão como algo isolado. Aquilo que entra pelos olhos pode permanecer na memória durante horas, dias ou anos. Uma imagem pode despertar desejo, inveja, medo, arrogância, cobiça, tristeza e comparação.
Mas também pode produzir compaixão, conhecimento, gratidão, humildade, esperança e lembrança de Allah. Por isso, proteger os olhos é também proteger o coração. O Profeta ﷺ ensinou:
“O zinā dos olhos é o olhar.” Ṣaḥīḥ Muslim 2657b
O ensinamento não significa que o simples olhar seja juridicamente igual ao ato completo de zinā. Ele mostra que determinados pecados podem começar muito antes da ação física. Muitas vezes, começam com aquilo que os olhos decidiram continuar observando.
Os olhos também serão questionados
Allah diz:
“Certamente, a audição, a visão e o coração, todos estes serão objeto de questionamento.” Alcorão, Al-Isrāʾ 17:36
Isso transforma nossa relação com os sentidos. Não somos apenas pessoas que possuem olhos. Somos responsáveis pela maneira como os utilizamos.
Niyyah: quando o olhar participa de uma boa ação
Niyyah significa intenção. Uma ação comum pode adquirir valor espiritual conforme a intenção e desde que esteja de acordo com aquilo que Allah permite. Alguém pode abrir um livro simplesmente para passar o tempo ou estudar buscando conhecimento útil.
Pode observar um filho ou neto estudando como uma cena comum ou olhar com gratidão e reconhecer a bênção daquela família. Pode perceber uma pessoa idosa atravessando a rua e seguir seu caminho ou reconhecer ali uma oportunidade de misericórdia.
Muitas boas ações começam porque alguém primeiro decidiu prestar atenção.
Ler o Alcorão com os olhos e com o coração
Uma das utilizações mais nobres da visão é direcioná-la para o Livro de Allah.
Mas existe diferença entre apenas percorrer as letras e permitir que as palavras atravessem os olhos e alcancem o coração. Isso envolve tadabbur: reflexão sobre o significado do Alcorão.
A pessoa lê:
“Ele conhece os olhares furtivos.”
E pergunta:
Como tenho usado meus olhos?
Lê:
“Baixem seus olhares.”
E pergunta:
Existe algo que preciso deixar de observar?
Lê sobre a criação dos céus e depois olha para o céu. Nesse instante, revelação e realidade começam a se encontrar. O Alcorão passa a educar também a maneira de olhar.
Conhecimento também pode ser adoração
Os olhos são uma das principais portas do aprendizado. Por meio deles, lemos Alcorão, ḥadīth, fiqh, sīrah, história, ciência, idiomas, literatura e conhecimentos profissionais.
Quando o conhecimento é lícito, útil e buscado com intenção correta, o estudo deixa de estar separado da vida espiritual. Uma pessoa pode abrir um livro e pensar:
Bismillāh. Quero utilizar este conhecimento de maneira que agrade a Allah.
Uma atividade aparentemente intelectual passa, então, a carregar intenção de ʿibādah.
Nem tudo o que pode ser visto merece nossa atenção
Provavelmente nunca houve uma época em que os olhos recebessem tantos estímulos quanto nesse nosso tempo. Durante grande parte da história humana, aquilo que uma pessoa via dependia do que estava fisicamente ao seu redor.
Hoje, em poucos minutos, uma tela pode mostrar centenas de rostos, corpos, casas, viagens, tragédias, propagandas e objetos de desejo. Por isso, a pergunta não é apenas: Posso olhar?” Também devemos perguntar: “Isso merece ocupar meu coração?”
Algo pode não ser explicitamente proibido e, ainda assim, consumir horas, alimentar comparação, produzir inquietação ou afastar o coração da lembrança de Allah. A disciplina do olhar inclui saber quando já vimos o suficiente.
Redes sociais e comparação
Uma pessoa abre uma rede social. Alguém está viajando. Outra pessoa comprou uma casa. Outra parece mais bonita. Outra possui mais dinheiro. Outra exibe uma família aparentemente perfeita. Os olhos veem, mas o coração começa a interpretar:
“Por que eu não tenho isso?”
“Por que minha vida não é assim?”
“Por que ela parece melhor do que eu?”
O processo começa nos olhos e rapidamente alcança o coração. Aqui aparece uma virtude essencial: qanāʿah, contentamento com aquilo que Allah concedeu.
Controlar aquilo que vemos pode ser uma forma de preservar a gratidão. Às vezes, proteger o coração significa simplesmente fechar a tela.
Enxergar quem normalmente passa despercebido
Existe outra dimensão da adoração dos olhos: perceber quem normalmente é ignorado. O pobre. A pessoa solitária. O idoso. O doente. A criança que precisa de atenção. O vizinho em dificuldade. A pessoa que trabalha ao nosso redor sem ser percebida. Às vezes dizemos:
“Eu não sabia que aquela pessoa precisava de ajuda.”
Mas talvez não soubéssemos porque não estávamos olhando. A misericórdia também começa na atenção. Ḥayāʾ também existe no olhar.
Ḥayāʾ significa modéstia, pudor e recato. Frequentemente associamos modéstia apenas à roupa, mas ela também existe na fala, no comportamento, na postura, naquilo que mostramos e na maneira como observamos outras pessoas.
Alguém pode estar vestido modestamente e, ainda assim, possuir um olhar invasivo. Pode examinar o corpo de outra pessoa, fazê-la sentir-se desconfortável ou alimentar desejos secretamente. Por isso, a ética islâmica não pergunta apenas: “Como estou sendo visto?” Pergunta também “Como estou olhando?”
O olhar pode produzir dhikr
Dhikr é lembrança de Allah. A visão pode ser desencadeada espontaneamente.
Ao observar um céu extraordinário: SubḥānAllāh.
Ao receber algo bom: Alḥamdulillāh.
Ao perceber a grandeza de uma montanha ou do oceano: Allāhu Akbar.
Ao ver alguém enfrentando dificuldade, a pessoa pode lembrar das próprias bênçãos e agradecer. Assim, o mundo deixa de ser apenas uma sucessão de imagens e se transforma em uma coleção de lembretes.
Baixar o olhar não significa deixar de olhar o mundo
O objetivo da disciplina visual não é viver olhando para o chão. O Islã não ensina a abandonar a visão.
O Alcorão nos convida a observar, refletir, viajar, aprender, contemplar a criação e reconhecer os sinais de Allah. A questão é muito mais profunda: olhar para aquilo que aproxima de Allah e afastar os olhos daquilo que O desagrada. A disciplina dos olhos não é cegueira voluntária.
É visão consciente. Existe o olhar que precisa ser desviado. Mas existe também o olhar que precisa permanecer.
Olhar o céu. Ler o Alcorão. Estudar. Contemplar a natureza. Olhar os pais com carinho. Perceber quem necessita de ajuda. Observar as bênçãos já presentes na própria vida.
Os olhos não foram criados apenas para serem contidos. Também foram criados para reconhecer os sinais do Criador.
Três perguntas para educar o olhar
Antes de permitir que algo ocupe nossos olhos e nosso coração, podemos fazer três perguntas:
- Allah permite que eu veja isso? Essa é a dimensão da obediência.
- O que isso produzirá no meu coração? Essa é a dimensão da purificação.
- Posso transformar aquilo que estou vendo em aproximação de Allah?
Essa é a dimensão da adoração consciente.
Essas três perguntas podem modificar profundamente nossa experiência visual.
A adoração dos olhos durante um dia comum
Ao acordar, abrimos os olhos. Antes de pensar apenas nas tarefas do dia, podemos recordar:
Allah me concedeu mais um dia. Consigo enxergar. Há luz. Existem pessoas que amo. Alḥamdulillāh.
Diante do espelho, em vez de enxergar apenas aparência, podemos perceber o tempo passando e lembrar que a vida não permanecerá para sempre. Ao caminhar pela rua, não controlamos tudo o que surge diante de nós, mas podemos decidir aquilo em que continuaremos fixando os olhos.
Ao estudar, podemos começar com Bismillāh e pedir a Allah que aquele conhecimento seja útil. No trabalho, podemos perceber alguém que necessita de ajuda. Os olhos identificam. O coração responde. As mãos agem.
Ao observar a família, podemos evitar tratá-la como cenário automático da rotina e reconhecer conscientemente a bênção de ter aquelas pessoas por perto. Ao acessar redes sociais, se percebermos inveja, desejo ilícito, raiva, comparação, insatisfação ou desperdício de tempo, podemos simplesmente sair. Isso não significa que a tela venceu.
Significa exatamente o contrário: decidimos o que nossos olhos receberão. Diante de algo belo, podemos não parar na beleza: SubḥānAllāh.
Diante do sofrimento, nem sempre devemos desviar o olhar. Talvez Allah tenha permitido que percebêssemos determinada necessidade porque existe algo que podemos fazer. As vezes, adoração significa desviar. Outras vezes, misericórdia significa permanecer olhando.
Sabedoria é aprender a diferença.
Ler o Alcorão com tadabbur
Ao ler o Alcorão, não é necessário transformar cada leitura numa corrida para terminar páginas. Podemos perguntar:
O que Allah está me ensinando aqui?
Existe uma ordem para mim?
Existe algo que devo abandonar?
Existe uma promessa?
Existe algo que preciso mudar?
Então os olhos deixam de apenas percorrer letras. Passam a participar de tadabbur.
Uma revisão antes de dormir
Antes de dormir, podemos terminar o dia com algumas perguntas: como usei hoje os olhos que Allah me concedeu?
O que vi que me aproximou dEle?
O que deveria ter evitado?
Alguma imagem prejudicou meu coração?
Algum sinal da criação me fez recordar Allah?
Percebi alguém que precisava de ajuda?
Ignorei deliberadamente alguém?
Pelas falhas, fazemos tawbah.
Pelo bem, agradecemos.
Cinco formas de adorar Allah com os olhos
Ao longo do dia, pode-se praticar conscientemente:
- Um olhar de contemplação
Observar algo da criação e dizer: SubḥānAllāh. - Um olhar de conhecimento
Ler Alcorão ou algum conhecimento benéfico. - Um olhar desviado por Allah
Quando surgir algo ilícito, afastar deliberadamente os olhos. - Um olhar de misericórdia
Perceber alguém que necessita de atenção ou ajuda. - Um olhar de gratidão
Observar alguma bênção já presente na própria vida e dizer: Alḥamdulillāh.
Quando essas atitudes se tornam conscientes, começamos a perceber que a adoração não acontece apenas durante a ṣalāh. Ela atravessa o cotidiano.
Os olhos como amānah
Muitas das coisas que hoje vemos um dia deixarão de estar diante de nós. Pessoas envelhecem. Filhos crescem. Pais partem. Casas mudam. Paisagens desaparecem.
Nosso próprio corpo enfraquece, e a visão também pode diminuir. Enquanto Allah nos permite enxergar, existe uma oportunidade extraordinária: usar os olhos para reconhecer Seus sinais.
O olho pode olhar para o céu, mas o coração deve enxergar além dele.
O olho pode ler o Alcorão, mas o coração precisa receber sua orientação.
O olho pode perceber uma pessoa sofrendo, mas a misericórdia deve mover nossas ações.
O olho pode encontrar aquilo que é proibido, mas a consciência de Allah pode fazê-lo desviar.
Allah poderia ter nos criado sem a capacidade de distinguir o rosto de uma pessoa querida. Sem cores, sem profundidade, sem a possibilidade de ler, sem contemplar o céu, sem observar uma criança sorrir, sem reconhecer o nascer e o pôr do sol. Mas Ele nos concedeu al-baṣar, a visão. E junto com a bênção veio a responsabilidade.
Por isso, a verdadeira gratidão pelos olhos não consiste apenas em dizer: “Obrigado, Allah, porque posso enxergar.” Existe uma gratidão ainda mais profunda:
“Ó Allah, porque Tu me deste estes olhos, quero utilizá-los para aquilo que Tu amas.”
Então baixar o olhar torna-se adoração. Ler torna-se adoração. Estudar torna-se adoração. Contemplar torna-se adoração. Perceber o sofrimento pode tornar-se adoração. Olhar a criação e recordar o Criador torna-se adoração. E a visão deixa de ser apenas uma função do corpo.
Torna-se um caminho para Allah.
Ó Allah, faze de nossa visão uma ajuda para nós em Tua obediência.
Āmīn.
